dezembro 03, 2003

Sábios

- Mas como sobreviverão esses sábios?
- O povo alimentá-los-á dia após dia.
- O povo não pode vir um dia cansar-se de os alimentar?
- Quando, em toda a superficie da Terra, já não houver um único ser disposto a alimentar um sábio, é que o mundo já não merece os sábios e é tempo de eles se irem embora.
- Deixar-se-ão morrer?
- Quando o mundo tiver abandonado os sábios, os sábios desertá-lo-ão. Então o mundo ficará sozinho, e sofrerá com a sua solidão
Este texto foi retirado de "Os Jardins de Luz", livro escrito pelo notável narrador que é Amin Maalouf sobre o profeta Mani, um homem do século III esquecido (e deturpado) pela História. Porém, para mim, no diálogo encontram-se reflexos actuais. Vivemos num Presente, na sua maior parte do tempo, ocupado pela infindável torrente do efémero, do culto à superficialidade e do prazer imediato das soluções fáceis. Não há muitos que tenham paciência de ouvir que os problemas podem ser difíceis, que a ignorância não é solução para nada, que as respostas podem exigir ainda mais sacrifícios e que a factura do Futuro é menor se for paga agora. O que observo localmente é o desinteresse progressivo dos assuntos importantes que vão permeando o mundo. Acho que é um sintoma não darmos devida atenção aos sábios que ainda temos. Quando um deles morre, não perdemos informação nem sequer conhecimento, mas perdemos um juízo sobre o que fazer com essa informação e com esse conhecimento. Eu pessoalmente não gosto da solidão.

ps: "Os Jardins de Luz" pertence à colecção Mil Folhas do Público. Custou-me €4,20. Não conheço melhor negócio que um livro bom e barato.

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